domingo, 24 de fevereiro de 2008

Cômoda - Como dividir uma cômoda de cinco gavetas entre duas pessoas numa separação

"Ninguém quer confissões aqui.
Nem reminiscências.
É apenas uma questão de manter
o foco.
Por isso esse formato, essa falsa
elaboração.
Se alguém aqui quisesse ser realmente
bom,
contaria as sílabas de um soneto
perfeito,
mas não é o caso. (...)"
(Fernanda Young - trecho do livro "Dores do Amor Romântico")


"Às vezes finjo fazer de conta que sou poeta
A um rabisco me empresto e saio a dançar
Pisando nos cacos, tapando o ouvido
...que é o ruído do chão rachando que me dói.

E escondida a dor de mim, me vejo sorrindo,
Fingindo, é claro, ser poeta.


E posso chegar perto se você quiser
E não me atrevo a duas linhas rabiscar tua presença.
Posso chegar perto, mas não vou tocar.
Tenho medo de ferir, tenho medo de quebrar
...que é o barulho do mundo quebrando que me dói.

E evitada a dor por mim, me vejo feliz
Fingindo, é claro, ser poeta.


Inda fingindo me ver brincar de poeta
Procuro passos no azulejo do banheiro e vou guardando
Juntando os pedaços das palavras caídas.
Penso ser fácil fugir depois que elas escaparam de mim
...que é o som das palavras caindo que me dói.

E impedida a dor em mim, me vejo partindo.
Fingindo, é claro, ser poeta.


O mais tardar escrevo um livro e publico
Com aquele soneto velho que deixei no lençol da cama
Pra que você poeta pudesse acordar
E perceber que o sonho continuava mesmo sem você
...que é o silencio do sonho acabando que me dói.

E refeita a dor por mim, me vejo acordado.
Fingindo, é claro, ser poeta.


Uma parte minha já não faz questão de ser,
Uma outra ainda não apareceu,
Mas essa que se diz poeta está perdida entre a entrada e a saída
E sempre evita se encontrar
...que é o grito da porta fechando que me dói.

E perdida a dor de mim, me vejo perdido.
Fingindo, é claro, ser poeta."
(Samuel Giacomelli e Cássio Machado - Poema Final)

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Processo

Deite.
Deleite.
Delete.


terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

"E eu? Qual o meu papel no meio de tudo isso? (...) Serei uma laranja mecânica?"
(Anthony Burgess - Laranja Mecânica)

sábado, 9 de fevereiro de 2008

E num e-mail...

"Sabe, nos últimos 20 ou 30 anos anda acontecendo uma coisa muito louca com as pessoas no mundo. Mais do que nunca elas (nós) estão com medo... Medo, entende? Medo... o medo é uma coisa muito séria, minha cara. É a causa dos maiores males da humanidade, em toda sua história. O medo causa a guerra, o medo causa a fome, o medo causa a doença... Certo, mas medo de quê? Principalmente do futuro, ma chérie. As pessoas fazem estoques de comida pelo medo da fome que pode vir. As pessoas guardam dinheiro pelo medo de se verem necessitadas no futuro. As pessoas se apossam das outras pessoas pelo puro e simples medo de se verem sós em algum lugar do tempo futuro. O Terrorismo, o Aquecimento Global, a Desegualdade Social no Mundo, as Doenças são todas frutos de ações que fazemos por medo. O grande número de casos de câncer que se vê por aí hj é consequência direta do aumento do medo das pessoas. Câncer surge de um desequilíbrio físico, e este, por sua vez, de um desequilíbrio mental. O câncer é um crescimento anormal do número de células... às vezes imagino o corpo, com medo de faltar células no futuro, estocar um realmente grande número de células em um determinado local... guardar para o futuro (já viu isso em algum lugar?).
Destaca-se as doenças... Em algum momento da vida, alguém acha que o mundo não está justo como deveria, ou infeliz, ou inerte... essa pessoa então sente vontade de não viver mais... viver para que, afinal? A vida não tem sentido, é só angústia e sofrimento... E num instante o corpo atende ao que a mente deseja. E surgem doenças...
As pessoas realmente não sabem o que fazer, estão sem rumo, a deriva e sem visão de terra. Não é à-toa o espantoso número de religiões e seitas que estão surgindo, prometendo um futuro feliz e um sentido para a vida das pessoas... Mas as pessoas são seres inteligentes, e vez ou outra se questionam: e se não tiver nada do que estão nos ensinando? Então surge mais um medo do futuro, do futuro prometido.
Enfim, isso é mais ou menos inteligível. O medo."

Ciro- 09.02.08

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Internada.

E a última luz da casa se apagou, vi por baixo da porta. Era tudo escuridão. Ele saiu correndo com ela pro hospital e ela gemia alto, de dor. Enfim eles iam interná-la.

Os rumores de um tumor já eram passado, não passavam de cistos no cérebro. Se você se lembra das aulas de biologia, há muito tempo atrás, também se lembra daquele cisticerco da taenia solitária... Bem, iam interná-la.

O tratamento consistia em um medicamento, forte, muito forte. Ela corria risco de ter convulsões devido às dores. Em casa ela vomitou, e teve falta de ar. E sentiu dor, muita dor. Daí foram interná-la. Finalmente.

Por mais que todos esses anos de casamento tenham-nos feito sofrer, eram só os dois e uma casa escura. Só os dois, sempre foi. A solidão de um se misturando com a carência do outro.

E nessa psicodelia de sentimentos melancólicos... A dor. Internaram-na.

E a casa, sozinha, quase escura e quase silenciosa. Havia a luz vermelha do rádio e uma respiração. Esqueceram isso... Mas internaram-na.