quinta-feira, 25 de setembro de 2008

E agora, José?

(Carlos Drummond de Andrade)
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José ?
e agora, você ?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama protesta,
e agora, José ?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José ?

E agora, José ?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio - e agora ?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora ?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…
Mas você não morre,
você é duro, José !

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José !
José, pra onde ?
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Li isso milhares de vezes na minha infância. Marcou. Gosto.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Autenticidade Incomoda

(por Alexandre Pelegi)
Quando Zezé di Camargo convidou Caetano Veloso para participar da produção musical de seu filme, ele disse que o fizera porque Caetano era um "atestado de qualidade". Por trás do que Zezé disse estava, na verdade, a busca de um aval que validasse sua obra junto àqueles que, por princípio, respondem somente aos impulsos da soberba, da arrogância ou da prepotência. Conheço muita gente que, com medo de ser flagrada assistindo à história de vida de uma dupla sertaneja, assistiu a "Dois Filhos de Francisco" graças à desculpa de que, afinal, a trilha era do incensado compositor baiano...

Curioso que tais pessoas sejam rotuladas como "formadoras de opinião", apesar de não possuírem opinião própria... Precisam de personalidades para validar seus gostos e preferências. Gente que diz que gosta porque ouviu dizer que é bom...

Isso vale não só para gostos musicais, literários ou culinários, mas também para definições físicas. Repare na ditadura das academias, da moda, e até mesmo – pasmem – das religiões. Somos identificados pelo que usamos, vestimos, comemos, consumimos e até pelo que acreditamos.

Esse maniqueísmo esconde o preconceito e o desespero diante de um mundo que é composto de matizes e cores que, nem sempre, fazem bem aos olhos de todos, nem aos gostos de muitos. Afinal, a liberdade de escolha pressupõe a liberdade de pensar. Quem se guia por modismos e pretensos gurus não se delicia com a antecedência da escolha. Não se dá ao gozo de conhecer para decidir se gosta, nem ao prazer de descobrir a beleza escondida no mundo.

Você gosta porque gosta? Ou tem vergonha de ouvir aquele bolero porque amigos dizem que é brega?

Você cultua sua religiosidade porque tão somente acredita, ou se esconde atrás de falsos mitos por ouvir dizer que fé é coisa de pobre?

Quem se guia apenas pelo coração e pelo prazer da descoberta é gente autêntica. Autenticidade faz bem, e talvez seja por isso que incomoda horrores...

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Somos tristes transeuntes de uma realidade que insta entre o chorar e a falta de ânimo. Como diria Móveis, "sou apenas mais um alegre deprê". Não se nega o ser, e o ser é triste, é depressivo e melancólico. Não se nega a realidade, e ela não é feita de rosas. Somos tristes transeuntes de uma realidade que insta entre o chorar e a falta de ânimo. A alegria momentânea e o riso são imagem da realidade ilusória na qual todos permeiam em algum momento, mas a verdade, meu caro, é que o ser é triste em sua essência. Mas... Qual seria a graça dessa realidade ilusória se não fosse o fato de conhecer a dor e o sofrimento? Qual seria a graça se eu não exagerasse e chorasse como uma criança sempre que posso ou quero ou me sinto assim, desse jeito que ninguém sabe como é porque só eu sinto(como todos pensam)? Sou apenas mais uma alegre deprê, no fim das contas.