Era noite... Tarde da noite... Henry estava nesse momento voltando à consciência. Quase simultaneamente ao seu 'despertar', uma enchente de pensamentos tomou conta de sua cabeça. Era como se grandes ondas de questões quebrassem no mar de idéias em meio à um forte temporal.
"Onde estou? O que faço aqui? Como cheguei?"
Estava tudo escuro, Henry sentia como se algo vendasse seus olhos, mas tinha certeza de que os arregalava à procura de algum feixe de luz que pudesse ajudá-lo a identificar aquele local.
"Qual foi a última coisa que fiz?? Pense Henry, pense..."
No começo ele achou que não podia se mover. E não podia. Depois de muito esforço sentiu como se deslizasse pelo espaço onde se encontrava, mas fazia-o com precaução, afinal, estava em um local desconhecido... Ele poderia cair, ou bater em algo...Mas por mais que deslizasse, parecia que o lugar não tinha um fim.
Henry era um homem jovem, no auge de seus 28 anos, acabara de se casar com a mulher que mais amava no mundo havia três meses. Joanne não era uma mulher bonita, mas também não era feia. Era o que se pode chamar de simpática. Está certo que ela era meio excêntrica e impulsiva, mas quando ela sorria...ah, quando ela sorria...
Depois de muito desespero, ao pensar em sua mulher, Henry começa a se recordar de como havia sido seu dia.
Levantou cedo, quase madrugada, mas sua dedicada recém-esposa já o aguardava com o café posto à mesa. Já como se fosse costume, ele toma o seu café sem dar muita importância e vai para seu serviço.
Ao entardecer, depois de um dia estressante e de discussões no serviço, Henry volta para casa. Pouco depois de entrar ele ouve o soar estridente da campainha.
Era a vizinha... AQUELA vizinha.
Kelly havia sido vizinha de Henry desde os 12 anos de idade, quando ele começava a se interessar pelas revistas que o irmão mais velho escondia no fundo falso da gaveta. E como a Kelly era boa... Como era... Como É! Henry sempre sonhara em tocar aquele corpo.
"Oi Henry, a 'Anne está?"
...Ai esse corpo. Esse corpo milimétricamente desenhado...
"Olha, acabei de chegar, mas tinha um bilhete na geladeira dizendo que ela saiu e ia demorar."
[...]
Seus corações batiam tão forte. Dizem que quando dois corpos se abraçam, seus corações batem em um só compasso... Tanta emoção... Henry só conseguiu identificar o que era seu corpo e o que era o corpo de Kelly ao ver sua esposa entrar no quarto com uma faca em punho, gritando loucamente... Eu já disse que ela era uma mulher excêntrica e impulsiva, não disse?
Desespero, choro... SANGUE! Dois corpos em uma cama e outro a observar...
"Lembrei!"
Ao dizer isso, o que era corpo fez-se espírito... O que era consciência... Fez-se silêncio.
Apenas silêncio e escuridão. Nada mais era visto, pensado, sentido ou lembrado. Apenas silêncio e escuridão...
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