sexta-feira, 27 de julho de 2007

É o que ocorre quando se foge à rotina

Joshua sempre foi um homem trabalhador. Não era tão ambicioso e não fazia por dinheiro, mas gostava mesmo de trabalhar. No auge de seus 30 anos, ele não tinha esposa nem namorada. Morava longe da família, tinha-os deixado no interior e mudara para a cidade grande. Homem de poucos amigos. Sua diversão era mesmo trabalhar e às vezes sair com os poucos amigos que fizera no prédio e no trabalho.

Um dia, sabe-se lá porque, Joshua resolve simular uma doença qualquer e não ir ao trabalho. Ligou, como um homem responsável faria, para o chefe e avisou. Não teve dificuldade em convencer o patrão, pois nunca, em quatro anos, havia tido problemas.

Durante a manhã... cama. Café, televisão, telejornal que há muito nao via. Almoço no Self-service da esquina, Coca-cola. Casa, banho, perfume, escovar os dentes, pentear o cabelo, vestir uma roupa legal (com cheiro de naftalina, há muito só usava a roupa social do trabalho), cinema.


Que filme estaria passando? Será que teria paciência para 2 horas ou mais de filme, sozinho?

Precisava de uma namorada. Alguém para lhe roubar do emprego às vezes, e fazê-lo sorrir. Precisava sorrir.

Filme visto, nem bom, nem ruim. Na verdade nem prestara atenção. Já era quase noite. Melhor voltar pra casa, não tinha visto graça nenhuma em passar o dia sem cumprir com suas responsabilidades. Não sozinho.


Na fila(ou o que deveria ser uma fila) para pegar metrô, ele avista uma mulher linda, bem ao seu lado esquerdo. Iria esperar entrar no metrô pra falar com ela, descobrir onde mora, falar sobre o que gostam de fazer... o que ele gostava de fazer? Seus olhares se crusaram, e por um instante Joshua pensou que desmaiaria. Borboletas no estômago. Sabia que não conseguiria falar com ela. Nunca.

Dentro do metrô, não parava de observar a tal mulher. Linda. Cabelos negros e lisos, como os de orientais. Pele muito branca e um corpo...nossa, QUE corpo. Já que nãoo conversariam, ele a seguiria até descobrir onde morava. E assim o fez. manteve-se próximo à porta e, assim que ela desceu, ele foi atrás.

Talvez ela tenha se sentido perseguida, realmente, pois apressou o passo e deu muitas voltas, antes de entrar na casa de algum amigo, ou namorado, sabe-se lá. O que importa é que Joshua não havia conseguido descobrir nada. Talvez devesse apenas ter arriscado um "oi". Talvez devesse ter tentado ser mais sociável no colégio, ou ter tido algumas namoradas na juventude. Talvez.

Depois de tantas voltas, Josh resolve voltar pra casa à pé, o dinheiro que havia pego para seu passeio havia acabado com o ticket do metrô. Estava frio, e ele sem agasalho. Tudo bem, dizem que o frio é psicológico, e a útima coisa em que ele pensava era na sensação térmica que deveria estar sentindo.

Nosso amigo Josh havia andado muito, e continuava em um lugar desconhecido. Não imaginara que sua casa estava tão distante. De repente as casas parecem mudar de lugar, as ruas se alargam e encolhem na sua frente, as luzes dos postes piscam. Um arrepio. Até então não havia percebido que começava a chover.Borboletas no estômago. Ele se abaixa no meio-fio e sente que irá vomitar, mas da sua boca saem apenas borboletas. Muitas delas, de todas as cores.

_O que diabos está acontecendo?

Ao levantar a face, percebe que a mulher a quem observara e perseguira se encontra à sua frente, no outro lado da rua, em uma das partes que se encontram mais largas. Ao seu lado, um gato. Negro como seus cabelos. Ele vem ao seu encontro.

_Saia de perto, não vê que passo mal?

E então nada. Negro.
Josh acorda em um quarto estranho para ele. Uma cama muito grande e muito macia, com muitas almofadas. Ao seu lado o maldito gato preto e do outro...

_Impossível.!

Impossivel. Joshua estava cara-a-cara consigo mesmo. Estava deitado em uma cama com seu próprio corpo. Passara a noite consigo mesmo. Impossível.

_Chega, eu não deveria ter faltado ao trabalho, pra mim chega, tenho que voltar para casa. Mas que droga.!!!!!!!!!

Ao se levantar ele percebe que algo mais estava errado. Corre em direção ao banheiro à procura de um espelho e dá de cara com um espelho de corpo inteiro. Não restavam dúvidas, ele estava... no corpo... daquela linda mulher.

_Droga, era tudo o que eu precisava, me tornar uma mulher.

Um comentário:

Anônimo disse...

Isso faz-me questionar sobre ideal... como adequado, como existente apenas na idéia e como síntese a tudo que aspiramos...
Lembra-te do fim, do começo e da renovação?
Lembra-te agora também do cotidiano, da construção gradual e do processo...